Julho de 2018: Gabriella, uma mulher de 30 anos de São Paulo, sofria de problemas de saúde há mais de uma década quando compareceu a uma consulta com seu clínico geral.
Entre os 14 e 17 anos, Gabriella procurou o atendimento primário várias vezes devido a cólicas abdominais e desconforto estomacal relacionados à alimentação. Durante esse período, o clínico geral a orientou a manter uma dieta saudável, variada e rica em fibras.
Aos 19 anos, Gabriella retornou ao clínico com dificuldades para se alimentar, dor abdominal, diarreia leve e cansaço generalizado. O hemograma completo e outros exames hematológicos estavam normais. Ela foi encaminhada para uma colonoscopia, que não mostrou nenhuma anormalidade. O clínico geral disse a Gabriella que a causa mais provável de seus sintomas era a síndrome do intestino irritável (SII), e nenhuma outra investigação foi realizada.
Os sintomas gastrointestinais por si só não permitem diferenciar com precisão a doença celíaca da SII;1 doenças orgânicas, como a doença celíaca, devem ser descartadas antes de se confirmar um diagnóstico de SII.2
A doença celíaca tem prevalência de 1% na população geral,3 e até 4,7% em pacientes diagnosticados com SII de acordo com os critérios de sintomas.4
Entre os 23 e 29 anos, Gabriella teve três gestações complicadas. Em todas, apresentou prurido intenso nos dois últimos trimestres, com níveis muito elevados de bilirrubina sérica e alanina aminotransferase. A colestase intra-hepática da gravidez foi identificada como a causa, e o prurido desapareceu espontaneamente no pós-parto. As três crianças nasceram prematuras.
A doença celíaca está associada a taxas elevadas de aborto espontâneo, restrição de crescimento intrauterino, baixo peso ao nascer e parto prematuro.5
Na época da consulta de julho de 2018, Gabriella sofria com sintomas intestinais havia 11 anos.
Gabriella, 30 anos: “A dor e a doença ocupam grande parte do meu dia a dia.”
Ao longo dos anos, os sintomas de Gabriella evoluíram; ela apresentava pouco apetite, perda de peso e lesões cutâneas semelhantes a bolhas nos cotovelos.
O clínico geral de Gabriella solicitou exames de função tireoidiana e verificou seus níveis de vitamina D.
O clínico geral considerou que a deficiência de vitamina D poderia explicar muitos dos sintomas e prescreveu cápsulas diárias de colecalciferol (1.400 UI).
Seis meses depois, o TSH de Gabriella ainda estava levemente elevado, o T4L permanecia no limite inferior do normal e os níveis de vitamina D haviam se normalizado. Como não tinha mais deficiência de vitamina D — até então considerada a causa de sua condição —, ela se sentiu pressionada a “melhorar”. No entanto, seus sintomas não melhoraram.
Gabriella:
Apesar de tudo isso, ela se acostumou tanto aos seus hábitos intestinais irregulares que já nem percebia mais; se tornaram parte da rotina.
Por essa época, Gabriella começou a registrar seus sintomas em um diário e percebeu que eles pareciam estar relacionados à alimentação, embora sem um padrão claro.
Aos 31 anos, seus sintomas intestinais haviam piorado consideravelmente, levando-a de volta ao clínico geral. Ela mostrou o diário ao médico, que então decidiu solicitar exames para doença celíaca e alergia alimentar. Como havia histórico de TSH levemente elevado, o médico também incluiu um exame para doença autoimune da tireoide.
Os resultados de sangue de Gabriella foram os seguintes:
tTG IgA é o teste de primeira linha recomendado para doença celíaca, juntamente com a dosagem de IgA total para verificar deficiência de IgA.6
Com base nos resultados dos exames mais recentes e na confirmação do gastroenterologista, o diagnóstico principal de Gabriella foi corrigido de SII para doença celíaca. Ela foi orientada a iniciar uma dieta rigorosa sem glúten e continuar mantendo seu diário — registrando cuidadosamente alimentos e sintomas.
Gabriella, 31 anos: “Por fim, existe um exame de sangue que pode explicar muitos dos sintomas que venho tendo há anos.”
Devido aos altos níveis de anticorpos anti-TPO, seu médico encaminhou Gabriella a um endocrinologista.
Em média, leva 13 anos para se receber um diagnóstico correto de doença celíaca.7
O endocrinologista de Gabriella realizou novos exames de função tireoidiana e anticorpos, confirmando tireoidite de Hashimoto subclínica. A condição não exigia tratamento imediato, mas deveria ser reavaliada a cada 3 meses.
Sinais sorológicos de doença autoimune da tireoide são encontrados em até 26% dos pacientes com doença celíaca.8
Em meados de 2020, Gabriella completou um ano seguindo rigorosamente uma dieta sem glúten. Seus hábitos intestinais melhoraram muito, mas ela ainda apresentava dores musculares, pele seca, cansaço e depressão.
Os níveis de tTG IgA estavam diminuindo (43 U/mL, 4x LSN), mas o TSH permanecia elevado e o FT4 havia caído abaixo do limite inferior do normal. Posteriormente, ela foi diagnosticada com hipotireoidismo secundário à tireoidite de Hashimoto e iniciou tratamento com levotiroxina.
É prática comum testar o tTG IgA a cada 3 meses, até a normalização, e uma vez por ano como indicador de adesão à dieta.6
Gabriella, 32 anos: “Me sinto aliviada por finalmente ter respostas para tantos anos de desconforto e mal-estar. Mas, ao mesmo tempo, ainda me sinto frustrada e desesperada, tendo ainda muitas perguntas sem respostas. Será que convivo com isso há tanto tempo? Percebo agora que realmente estava doente — embora antes acreditasse que fosse algo mental, e não físico.”
Você faria um diagnóstico de SII sem antes solicitar um exame de sangue de IgA anti-tTG para rastrear doença celíaca?
Este é um estudo de caso fictício, e a imagem utilizada é de uma modelo.
FT4: tiroxina livre; IgA: Imunoglobulina A; IgE: imunoglobulina E; TSH: hormônio estimulante da tireoide; tTG: transglutaminase tecidual; LSN: limite superior ao normal
1. Rubio-Tapia A, Hill I D et al. ACG clinical guidelines: diagnosis and management of celiac disease. Am J Gastroenterol 2013;108(5):656-676;quiz 677
2. Moayyedi P, Mearin F et al. Irritable bowel syndrome diagnosis and management: a simplified algorithm for clinical practice. United European Gastroenterol J 2017;5(6):773-788
3. Gujral N, Freeman H J, Thomson A B. Celiac disease: prevalence, diagnosis, pathogenesis and treatment. World J Gastroenterol 2012;18(42):6036-6059
4. El-Salhy M, Hatlebakk J G et al. The relation between celiac disease, nonceliac gluten sensitivity and irritable bowel syndrome. Nutr J 2015;14:92
5. Shah S, Leffler D. Celiac disease: an underappreciated issue in women's health. Womens Health (Lond) 2010;6(5):753-766
6. Al-Toma A, Volta U et al. European Society for the Study of Coeliac Disease (ESsCD) guideline for coeliac disease and other gluten-related disorders. United European Gastroenterol J 2019;7(5):583-613
7. Gray A M, Papanicolas I N. Impact of symptoms on quality of life before and after diagnosis of coeliac disease: results from a UK population survey. BMC Health Serv Res 2010;10:105
8. Lauret E, Rodrigo L. Celiac disease and autoimmune-associated conditions. Bio Med Res 2013;2013:127589